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sexta-feira, 24 de outubro de 2025

O Chamado

Existe uma corrente de cinéfilos que criticam a mania dos norte-americanos de promoverem adaptações de filmes de outros países que fizeram sucesso pelo mundo afora. Cheguei a ler que isso se deve à preguiça dos cidadãos dos Estados Unidos de lerem legendas e à falta de inspiração dos grandes estúdios para produzirem filmes com um bom argumento. E as críticas vão além: a s refilmagens de longas originados em países de língua não inglesa estão apresentam resultados muito ruins. Os remakes (com alteraçãos para atender o estilo hollywoodiano) têm como fontes os filmes de sucesso de países como o Japão, a Tailândia e a Espanha.
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Como exemplos, temos: "O Grito" (The Grudge , USA, 2004) e sua deprimente continuação, refilmagem de "Ju-On - O Grito" (2000); "O Olho do Mal" (The Eye, USA, 2008), com Jessica Alba (provando que é realmente bonita e péssima atriz), refilmagem de "The Eye - A Herança" (2002); "Imagens do Além" (Shutter, USA, 2008), refilmagem do ótimo "Espíritos - A Morte Está ao Seu Lado" (2004); e "Uma Chamada Perdida" (One Missed Call, USA, 2008), refilmagem de "Chakushin Ari" (2003). Os remakes mencionados acima nos apresentaram filmes inferiores aos originais e, em alguns casos, verdadeiras bombas, o que me leva a sugerir que as pessoas procurem assistir aos longas que serviram de base para o produto norte-americano. Acho que serão mais felizes.
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E notem que os filmes originais nem são tão antigos e poderiam ter sido distribuídos dignamente no país, sem a necessidade de um alto custo para uma versão fraca.
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Felizmente nem todas as versões norte-americanas ficaram ruins, uma vez que temos sido presenteados com gratas surpresas como "Água Negra" (Dark Water, USA, 2005), com a ótima Jennifer Connelly, sendo uma refilmagem de "Honogurai Mizu No Soko Kara" (2002); "Vanilla Sky" (Vanilla Sky , USA, 2001), um filme bom, embora inferior ao original espanhol "Abre los Ojos" (1997) e "O Silêncio do Lago" (The Vanishing, USA, 1993), refilmagem de "Spoorloos" (1988), da Holanda. Eu tenho ciência de que os dois últimos citados foram "condenados" pela crítica especializada, mas ficaram bastante razoáveis e renderam bons comentários de muitos que os assistiram.
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Mas vamos ao que interessa:
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Diante dessa introdução, quero me referir a um filme que marcou a trajetória de filmes de terror e trouxe um diferencial para os fãs do gênero: o excelente "O Chamado" (The Ring, USA, 2002). A prova disso é que, logo após o grande sucesso dessa refilmagem, a quantidade de filmes que tentaram copiá-lo foi absurda e descarada, chegando ao ponto de produzirem (gastando dinheiro) filmes toscos e risíveis.
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À exceção do excelente "Os Outros" (The Others, USA, 2001), estávamos sendo invadidos por uma bateria de produções que entraram na onda dos sucessos das franquias de "Pânico" (Scream), mas sem a inteligência deste, que sabia brincar consigo mesmo, de "Lenda Urbana" (Urban Legend) e "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado" (I know what you did last summer), ressucitando até a franquia de "Halloween", e passando por aqueles filminhos que mostravam vários jovens atores nos cartazes de divulgação, como o chato "Alucinação" (Soul Survivors, USA, 2001), o mediano "Comportamento Suspeito"(Disturbing Behavior, Australia, USA, 1998) e o aceitável "Prova Final" (The Faculty, USA, 1998).

Nesse cenário, surgiu "O Chamado", uma produção caprichada e bem divulgada que rompeu com os estilos que predominavam para um filme de terror, valorizando o aspecto psicológico, a dúvida e a sugestão. É claro que a produção norte-americana não conseguiria deixar de usar o que seus cidadãos adoram: efeitos especiais e sons altos nos momentos de impacto, o que não teve no original "Ringu" (1998).

Com direção de Gore Verbinski (de "Piratas do Caribe"), que até então só havia dirigido o "A Mexicana" (um filme sem muita prosperidade), um curta-metragem e o infantil "Um Ratinho Encrenqueiro", e distribuído pela DreamWorks (de Steven Spielberg e cia), "O Chamado" despertou interesse logo que a inteligente campanha de marketing começou a divulgá-lo.
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É certo que houve algumas modificações do original japonês de forma a torná-lo mais próximo dos espectadores ocidentais, mas a trama foi mantida por ser muito boa (se não fosse, é claro que não haveria um remake norte-americano). A história começa com duas garotas (caracterizadas como típicas adolescentes dos Estados Unidos) que estão sozinhas na casa de uma delas e que chegam ao assunto de uma lenda urbana que rezava sobre uma maldição em torno de uma fita VHS. A fita tinha um conteúdo muito estranho e quem a assistia recebia uma ligação que sussurrava "sete dias". Com esse prenúncio, a pessoa estava amaldiçoada e iria morrer no prazo mencionado.
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Katy (Amber Tamblyn - que protagonizou o ridículo "O Grito 2"), uma das garotas, fica assustada, pois, há uma semana, ela esteve com o namorado e um casal de amigos num chalé e assistiu a uma fita muito estranha que estava no acervo do local. Rebecca (Rachael Bella), a outra garota, ri e conta que tudo não passava de bincadeira, de uma lenda urbana. Mas nessa mesma noite, algo tenebroso acontece com Katy. O que no original japonês é só insinuado, havendo um corte no momento crucial, na versão americana, há um número maior de detalhes, sem, contudo, revelar o que causou a morte de Katy.
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Calma! O que eu escrevi é só o início do filme. No funeral de Katy, sua mãe (Lindsay Frost ) se mostra indignada, querendo entender o que faria uma garota de 16 anos morrer do coração e apresentar uma expressão de puro pavor no rosto, enquanto sua amiga Rebecca enlouquece e é internada num hospital psiquiátrico, entrando em estado catatônico.

A partir de então, inicia-se o enigma de "O Chamado", entrando em cena a prestigiada e linda atriz Naomi Watts (foto acima). Interpretando a repórter Rachel Keller (papel recusado por Jennifer Connelly, Gwyneth Paltrow e Kate Beckinsale - as duas primeiras até poderiam se dar ao luxo de recusar, mas a terceira...), Watts dá um tom dramático e dinâmico para sua personagem, o que trouxe um ótimo diferencial para o filme. Uma grande profissional que soube dar crédito às situações absurdas apresentadas na produção graças à sua seriedade e competência.
Rachel é tia de Katy e, durante o funeral, acaba ouvindo a conversa de algumas garotas sobre as coincidentes mortes trágicas dos três companheiros que tinham ido ao chalé com sua sobrinha (o namorado e o casal de amigos). Intrigada, Rachel resolve investigar a situação e se depara com uma história assustadora que pode comprometer a sua vida e a de seu filho Aidan (David Dorfman), um menino sensitivo que já havia previsto a morte de Katy.
Com incidência de sons muito bem acertados e um cuidadoso trabalho de fotografia, "O Chamado" envolve o espectador do início ao fim, causando uma sensação de ansiedade, medo e uma grande curiosidade para saber o que há por trás daquela fita VHS.


Completando o elenco, além do ator em ascensão Martin Henderson (de "Fúria em Duas Rodas"), temos os veteranos Brian Cox e a sempre agradável Jane Alexander (de "Kramer vs. Kramer").


Não foi por acaso que a angelical e bonitinha Daveigh Chase (foto acima) ganhou o MTV Movie Awards, na categoria de Melhor Vilã, por ter dado vida à estranha e malévola Samara Morgan, um dos trunfos do filme. Destaque para um grande momento: a seqüência do cavalo furioso na balsa que, diante da proximidade de Rachel, sente o prenúncio da maldição, tornando-se um animal feroz e incontrolável que chega a romper a sua cela de proteção. É uma das cenas mais assustadoras do filme, embora o público eleja outras como aquelas que os deixaram com medo de dormir.

Algo que ficou interessante na versão norte-americana foi o título do filme. Em vários momentos, um círculo é mostrado (de forma explícita ou subliminar), o que poderia ser um anel (ring), uma aliança, um simbolo de ligação; no entanto, ring, no idioma inglês, também serve para os toques telefônicos. No filme, aqueles que chamam as vítimas para ouvir a mensagem fatal... Seven Days! Desta forma, criou-se um dubiedade na interpretação do que seria "The Ring". Tanto que o cartaz norte-americano do filme traz a seguinte mensagem: "Before you die, you see", ou seja, não é "ouvir" como no pôster em português.

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Não posso deixar de comentar um ponto destoante: "O Chamado", talvez pela diferença de tempo da produção norte-americana com a japonesa, nos apresenta uma modernidade (grandes televisões de plasma - provavelmente com conversor digital integrado, HDTV, conexões HDMI e USB, celulares pequenos, computadores avançados, equipamentos de captura de imagens etc) que contrasta com a fita VHS, o objeto principal do filme, afinal, são poucos os que ainda têm seus aparelhos de video cassete instalados em casa...
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Segue abaixo o conteúdo da fita VHS que determinava a morte de quem assistia. Mas não se assuste se, ao terminar de assistir, você receber uma ligação com uma voz sussurrante, dizendo: "seven days".

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

A Hora do Mal

 


A Hora do Mal (Weapons, 2025) parece uma tentativa de o diretor Zach Cregger se redimir do fraco Noites Brutais (Barbarian, 2022), um filme de premissa interessante, mas de desenvolvimento grotesto e ruim. 

Este A Hora do Mal traz uma história bem original e de roteiro bem delineado (também executado por Creeger), tanto que o longa trancorre facilmente, sem risco de te fazer cair no tédio.

O longa é protagonizado por Josh Brolin (em atuação mediana), Julia Garner, Alden Ehrenreich e a sempre grandiosa Amy Madigan.


Em uma região de subúrbio norte-americano, 17 crianças de uma mesma sala de ensino infantil desaparecem no mesmo horário de uma madrugada, à exceção de um menino quietinho e bondoso. 

O fato deixa mistério, medo e revolta na população, principalmente nos pais dos inocentes desaparecidos. Desesperados e sem respostas precisas da polícia, alguns pais e outros cidadãos decidem colocar a culpa na jovem professora, que, acuada, passa a investigar o caso por conta própria.

Assim, ela se mostra não somente determinada, mas uma garota corajosa e sagaz. A sua intérprete, a bonitinha e talentosa Julia Garner não faz feio e mostra que é uma das boas atrizes de sua geração.



E o elenco todo está muito bem afinado, com destaque para os desempenhos de Alden Ehrenreich, Austin Abrams e Benedict Wong, como Marcus, o diretor da escola.



O único "pecado" no transcorrer do longa é ter deixado de lado dois suspeitos em potencial. Isto é um spoiler?

Para quem gosta de ocultismo é um prato cheio. O filme prova que ainda é possível se fazer terror com criatividade, sustos bem elaborados, dinamismo e, acredite, bom humor.




segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Suspense, Sustos e Loiras Surpreendentes

Janet Leigh

O que as loiras acima têm em comum com a estrela Janet Leigh?

ATENÇÃO: ESTA POSTAGEM POSSUI SPOILERS SOBRE OS SEGUINTES FILMES:

“Psicose” (Psycho, USA, 1960), “Vestida Para Matar” (Dressed to Kill, USA, 1980), “Pânico” (Scream, USA, 1996), “O Ente Maldito” (The Ghol, UK, 1975), “A Hora do Pesadelo” (Nightmare on Elm Street, USA, 1984), “Sexta-Feira 13″ (Friday the 13th, USA, 1980 e “O Corte da Navalha” (Razorback, Australia, 1984).
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Além do fato de também serem (ou estarem) loiras e de terem atuado em bons filmes do cinema, elas foram apresentadas ao público como a (suposta) protagonista da produção, mas encerraram suas participações em pouco tempo da projeção, passando o bastão para outras atrizes.

O mestre do suspense Alfred Hitchcock foi o cineasta que mais brilhou nessa jogada de induzir o público a um enredo e chocar toda uma platéia ao eliminar a “protagonista” após alguns minutos do filme. A façanha foi apresentada no clássico “Psicose” (Psycho, USA, 1960) e serviu de inspiração para vários outros diretores. Neste filme, a tarefa de assumir o papel da mocinha da história ficou a cargo da não menos talentosa e também loira Vera Miles.




Ainda que as outras produções não tenham atingido a importância de "Psicose", a idéia, em alguns casos, foi até bem aplicada, conseguindo criar o inevitável incômodo no público.

Em questão de impacto, o que mais se aproximou do clássico de Hitchcock foi o filme de seu assumido discípulo Brian De Palma. Em “Vestida Para Matar” (Dressed to Kill, USA, 1980), o diretor fez alarde com a volta triunfal da estrela da série de TV Police Woman, a belíssima Angie Dickinson, prometendo cenas picantes com a recatada loira, da mesma maneira que o Mestre do Suspense fez com Leigh (embora com muito mais discrição). E não é que Brian De Palma fez o mesmo com a personagem da atriz? A substituição da heroína ficou a cargo da também loira Karen Allen.



Quando do lançamento do filme “Pânico” (Scream, USA, 1996), dirigido pelo renomado Wes Craven, os cartazes de divulgação nos fizeram pensar que a loirinha Drew Barrymore seria a protagonista do filme. Em entrevista de divulgação do longa, a jovem atriz (não sabemos se ingenuamente) jogou por terra toda uma jogada (sem trocadilho) de marketing ao dizer que não queria antecipar muito sobre as surpresas do filme, mas que ela estava se “sentindo uma Janeth Leigh, uma Angie Dickinson…”. Os cinéfilos entenderam o recado. Desta vez, a substituição da protagonista ficou a cargo da bela morena Neve Campbell.



Querendo copiar ou não o grande mestre, o filme inglês “O Ente Maldito” (The Ghol, UK, 1975) conseguiu a façanha de fazer o público acreditar e torcer para que a personagem Angela, interpretada pela sensual Veronica Carlson (loira, sexy e envolvente!!!), desvendasse o mistério da mansão gótica no meio de uma floresta. Entretanto, a “inocente” garota não sabia que estava prestes a ser eliminada numa cena inusitada. Nessa produção, a quase ruiva (quase sempre loira em outros filmes) Alexandra Bastedo (suave no início e completamente histérica ao final) fez a vez da mocinha substituta.

 


Falando de substituição de loiras por quase ruivas, o diretor Wes Craven (olha ele aqui de novo!!!) já havia feito essa mesma jogada antes de seu filme “Pânico”. Em “A Hora do Pesadelo” (Nightmare on Elm Street, USA, 1984), ele nos apresentou a linda Amanda Wyss como a garota que iria conduzir o público ao longo desse grande sucesso do cinema, mas o tenebroso Fred Kruegger (Robert Englund), talvez para já mostrar aos espectadores que não estava para brincadeiras, atacou a mocinha e mudou o rumo da história. A ruivinha Heather Langenkamp assumiu o jogo e partiu para o ataque (ou para fuga).



Sean S. Cunningham dirigiu a bonitinha Adrienne King em “Sexta-Feira 13″ (Friday the 13th, USA, 1980), a jovem ingênua que sobrevive ao massacre e que consegue liquidar a malévola Pamela Voorhees (Betsy Palmer). Risível e depreciado por alguns, é inegável que o filme se tornou um grande sucesso e suas continuações foram a prova de que a franquia fora (ou ainda é) promissora. A inevitável seqüência, que introduziu o assassino Jason Voorhees, anunciou que a loirinha sobrevivente do primeiro filme estaria de volta. Mas eis que a produção, dirigida por Steve Miner, resolveu dar um susto na platéia com a eliminação da gorota (King) logo na primeira cena da parte 2. A substituta loira, em papel muito parecido com o de Adrienne, foi Amy Steel.



Com “O Corte da Navalha” (Razorback, Austrália, 1984), o diretor Russell Mulcahy trouxe ao público um filme acima da média na proposta e na condução inicial do enredo, valorizado por uma fotografia muito bem cuidada. Já estávamos intrigados com a investigação sobre uma devassa mostrada logo no início do longa e acostumados à corajosa repórter Beth Winters, vivida com sobriedade pela charmosa Judy Morris (loira), quando algo monstruoso faz um estrago geral e nos deixa simplesmente atônitos. O ator Gregory Harrison, que faz o marido da personagem de Morris, assume o posto central do filme e vai ao local da tragédia para saber notícias de sua desaparecida esposa, recebendo a ajuda da loirinha da vez, a bonitinha Arkie Whiteley.


O Mestre do Suspense deixou seu legado e outros cineastas conseguiram fazer bons filmes com essa idéia de surpreender o público com a eliminação da protagonista, no entanto, até o momento, ninguém conseguiu superar a importância de Alfred Hitchcock no estilo suspense, tampouco desbancar a performance do ícone Janet Leigh.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O Boneco do Mal

Esqueça o infeliz título em português, que nos remete a qualquer outra coisa que já assistimos em algum momento da vida. Deveriam ter optado pelo simples, apenas traduzindo o título original, afinal, o garoto do filme em questão tem nome, história, fotografias e representatividade na vida daqueles que o cercam. Estar presente em cena como um boneco não é um fator, pelo menos na proposta do filme, para ser visto como tal. Na realidade, os distribuidores brasileiros quiseram aproveitar o trunfo de alguns filmes que fizeram sucesso com seus bonecos diabólicos. Estão aí Annabelle (idem, 2014) e Chuck: O Boneco Assassino (Child's Play, 1998). Não entenderam (ou não quiseram entender) a sutileza e ironia do título em inglês.


O Boneco do Mal (The Boy, 2016) é um filme de terror em seu formato mais cômodo possível, aquele tipo que utiliza os mesmos itens e recursos das várias produções do gênero. Muitas vezes, argumento e roteiros muito elaborados para o gênero fazem com que o rumo se perca, incorrendo naquela triste sensação de que os idealizadores não souberam contar a história. Defendo que, na falta de um processo criativo de mestre (poucos o são) é preferível ir pelo terreno seguro mesmo. Se você não for um gênio de criação cinematográfica, fique no simples, da mesma forma sugerida para o título.

Por outro lado, nesse aspecto de se manter no usual ambiente do terror, é preciso estar ciente de que os clichês do gênero serão inevitáveis. Então, para o público, é necessário dar um desconto e embarcar na proposta, ao passo que, para os produtores, é esperado algum tipo de melhor do mesmo. Ou seja, trabalhar com o clichê não significa que os elementos deverão ser revisitados sem algum tipo de inovação. Trabalhe o ângulo, trabalhe o momento, trabalhe o ator, inverta a ordem. Recontar o conhecido de forma ímpar também é muito bem-vindo.

Veja se não parece com o conteúdo de qualquer coisa que já vimos: garota bonita sozinha e vulnerável, mansão isolada no meio de uma floresta, carros que não dão partida de início, barulhos estranhos, sonhos assustadores, acordes altos... Por aí vai! O importante é cuidar para que não fique burocrático (no sentido negativo do termo) e simplesmente jogado na cara do espectador.

Greta, uma bela garota norte-americana (Lauren Cohan, a Maggie de The Walking Dead), tentando esquecer os tormentos de um namoro sofrível, aceita um trabalho de babysitter numa mansão em lugar remoto da Inglaterra. No local, ela é recebida por um casal de meia-idade e termina por descobrir que havia sido contratada para cuidar de um boneco. Aí que entra a questão de dar esse nome ao título. Apesar de a criança ser realmente um boneco, sua existência era encarada como a de um garoto normal, com direito a rotinas próprias de um ser humano. E, o mais importante, ele tinha um histórico de vida: registros fotográficos (de quando existia), nome, certidão de nascimento...



Logicamente, a princípio, a mocinha acha a situação risível, mas como ela estava recebendo um bom dinheiro para aquele ofício e pretendia realmente manter distância do namorado complicado, resolveu entrar no jogo e tratar Brahams (o nome do garoto representado pelo boneco) como uma criança.

O casal, então, decide sair numa esperada viagem de férias (para isso eles haviam contratado Greta), deixando a babá completamente sozinha (e isolada) na mansão com o garoto.

A partir daí, não é difícil imaginar que Greta começaria a ouvir vozes, receber telefonemas, ter objetos desaparecidos, terminando, por fim, a entrar em pânico. É realmente necessário compreender a natureza tola das mocinhas de filmes de terror, senão fica impossível embarcar na história. O roteiro chega a ser bem patético em certos momentos. Ninguém tem pertences tirados de um local, ainda mais quando se está sozinho em casa, e sai em busca, adentrando aquele batido lugar escuro e sinistro, e o pior, apenas de toalha!

Relevem!



O bom do filme é que ele não invocou os velhos feitiços e maldições tão recorrentes nos filmes de terror atuais, indo por um caminho que, sem tanto alarde, ao menos foi sincero e acertado.

Longe de ser um filmão, O Boneco do Mal ao menos serve para uma boa sessão de filme de terror. sem muitas pretensões. Vale ver na TV, em VOD ou streaming.

Concluindo a ópera, eu gostei.


Corrente do Mal

Corrente do Mal (It Follows, 2014) é mais um filme de terror com adolescentes que se assustam, que gritam, que correm, que transam... Porém, a direção optou por um caminho que afastou o longa do desagradável mais do mesmo tão comum nos filmes de terror da atualidade.


Com elenco sem muitos atrativos e figuras adultas quase inexistentes, o filme traz o dilema de uma bela jovem que, após transar com um paquera, passa a sofrer com visões perturbadoras que a fazem sentir-se num perigo iminente diante das estranhas figuras que ela tem visto mesmo acordada.

Em virtude do contato sexual, ela havia recebido uma maldição que a faria ver seres estranhos, podendo estes aparecerem com diversas formas e em lugares inesperados. E o que eles queriam? Matar! E como ela ficou sabendo disso? O rapaz que transou com ela contou que se tratava de uma maldição transmitida durante o contato sexual. E por que ele fez isso? A carne é fraca...


E o rapaz não era bem um vilão... Ele também havia recebido a maldição ao transar com uma garota. Como ele sabia que, com algum cuidado e vigilância, a pessoa poderia se safar, terminou por escolher uma bela jovem para fazer o que ele estava precisando a algum tempo. Escolheu a bonitinha protagonista do filme e se dignou a contar para ela o que fazer e como fugir: "Fique sempre em lugares onde você possa fugir com facilidade e observe sempre que algum estranho se aproximar". Mais gentil e camarada impossível. E ele ainda deixa a moça de sutiã e calcinha na porta de sua casa. 

Fugindo dos contumazes clichês do gênero, em que acordes altos e imagens grotescas significam trunfos para aterrorizar a plateia, este filme procura instaurar o medo por meio da tensão crescente e de situações muito mais sugeridas do que mostradas.

A aproximação dos algozes nunca é jogado de uma hora para outra na cara do espectador. Muito pelo contrário! Muitas vezes estamos mais atentos que os próprios personagens e tememos por algo que já está sendo mostrado, mas que os preocupados e ingênuos protagonistas nem sempre percebem.


Outro fato interessante é a proposital atemporalidade do longa. Não é possível identificar a época da história. O trabalho da direção de fotografia imprime um visual sóbrio para a produção, ao passo que os figurinos elegantes e sem modismo não permitem que os estilos fiquem datados. Embora, alguns gadgets, de certa forma, nos remetam à atualidade, eles têm seus efeitos atenuados (ou anulados) ao serem mostrados juntamente com TVs de tubo e outros itens já ultrapassados. E outra: onde estão os celulares? Não vi.

Uma cena em específico consegue assustar, sendo uma das poucas que acontecem de forma rápida. E isto acontece exatamente porque o filme prepara o público a não esperar por aquelas imagens tenebrosas que finalizam as cenas com som estrondoso. Por outro lado, algumas sequências não funcionam e comprometem a legitimidade das figuras fantasmagóricas, com a situação em que os jovens se encontram na piscina. Ficou meio palhaça (na falta de outra palavra).


Está longe de ser um referencial de filme de terror, no entanto, A Corrente do Mal entra nas exceções do gênero ao arriscar perder uma fatia dos adeptos desmiolados ao imprimir um medo pelo caminho da dúvida e da apreensão gradativa.