Mostrando postagens com marcador suspense. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador suspense. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

O Chamado

Existe uma corrente de cinéfilos que criticam a mania dos norte-americanos de promoverem adaptações de filmes de outros países que fizeram sucesso pelo mundo afora. Cheguei a ler que isso se deve à preguiça dos cidadãos dos Estados Unidos de lerem legendas e à falta de inspiração dos grandes estúdios para produzirem filmes com um bom argumento. E as críticas vão além: a s refilmagens de longas originados em países de língua não inglesa estão apresentam resultados muito ruins. Os remakes (com alteraçãos para atender o estilo hollywoodiano) têm como fontes os filmes de sucesso de países como o Japão, a Tailândia e a Espanha.
.
Como exemplos, temos: "O Grito" (The Grudge , USA, 2004) e sua deprimente continuação, refilmagem de "Ju-On - O Grito" (2000); "O Olho do Mal" (The Eye, USA, 2008), com Jessica Alba (provando que é realmente bonita e péssima atriz), refilmagem de "The Eye - A Herança" (2002); "Imagens do Além" (Shutter, USA, 2008), refilmagem do ótimo "Espíritos - A Morte Está ao Seu Lado" (2004); e "Uma Chamada Perdida" (One Missed Call, USA, 2008), refilmagem de "Chakushin Ari" (2003). Os remakes mencionados acima nos apresentaram filmes inferiores aos originais e, em alguns casos, verdadeiras bombas, o que me leva a sugerir que as pessoas procurem assistir aos longas que serviram de base para o produto norte-americano. Acho que serão mais felizes.
.
E notem que os filmes originais nem são tão antigos e poderiam ter sido distribuídos dignamente no país, sem a necessidade de um alto custo para uma versão fraca.
.
Felizmente nem todas as versões norte-americanas ficaram ruins, uma vez que temos sido presenteados com gratas surpresas como "Água Negra" (Dark Water, USA, 2005), com a ótima Jennifer Connelly, sendo uma refilmagem de "Honogurai Mizu No Soko Kara" (2002); "Vanilla Sky" (Vanilla Sky , USA, 2001), um filme bom, embora inferior ao original espanhol "Abre los Ojos" (1997) e "O Silêncio do Lago" (The Vanishing, USA, 1993), refilmagem de "Spoorloos" (1988), da Holanda. Eu tenho ciência de que os dois últimos citados foram "condenados" pela crítica especializada, mas ficaram bastante razoáveis e renderam bons comentários de muitos que os assistiram.
.
Mas vamos ao que interessa:
.


Diante dessa introdução, quero me referir a um filme que marcou a trajetória de filmes de terror e trouxe um diferencial para os fãs do gênero: o excelente "O Chamado" (The Ring, USA, 2002). A prova disso é que, logo após o grande sucesso dessa refilmagem, a quantidade de filmes que tentaram copiá-lo foi absurda e descarada, chegando ao ponto de produzirem (gastando dinheiro) filmes toscos e risíveis.
.
À exceção do excelente "Os Outros" (The Others, USA, 2001), estávamos sendo invadidos por uma bateria de produções que entraram na onda dos sucessos das franquias de "Pânico" (Scream), mas sem a inteligência deste, que sabia brincar consigo mesmo, de "Lenda Urbana" (Urban Legend) e "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado" (I know what you did last summer), ressucitando até a franquia de "Halloween", e passando por aqueles filminhos que mostravam vários jovens atores nos cartazes de divulgação, como o chato "Alucinação" (Soul Survivors, USA, 2001), o mediano "Comportamento Suspeito"(Disturbing Behavior, Australia, USA, 1998) e o aceitável "Prova Final" (The Faculty, USA, 1998).

Nesse cenário, surgiu "O Chamado", uma produção caprichada e bem divulgada que rompeu com os estilos que predominavam para um filme de terror, valorizando o aspecto psicológico, a dúvida e a sugestão. É claro que a produção norte-americana não conseguiria deixar de usar o que seus cidadãos adoram: efeitos especiais e sons altos nos momentos de impacto, o que não teve no original "Ringu" (1998).

Com direção de Gore Verbinski (de "Piratas do Caribe"), que até então só havia dirigido o "A Mexicana" (um filme sem muita prosperidade), um curta-metragem e o infantil "Um Ratinho Encrenqueiro", e distribuído pela DreamWorks (de Steven Spielberg e cia), "O Chamado" despertou interesse logo que a inteligente campanha de marketing começou a divulgá-lo.
.
É certo que houve algumas modificações do original japonês de forma a torná-lo mais próximo dos espectadores ocidentais, mas a trama foi mantida por ser muito boa (se não fosse, é claro que não haveria um remake norte-americano). A história começa com duas garotas (caracterizadas como típicas adolescentes dos Estados Unidos) que estão sozinhas na casa de uma delas e que chegam ao assunto de uma lenda urbana que rezava sobre uma maldição em torno de uma fita VHS. A fita tinha um conteúdo muito estranho e quem a assistia recebia uma ligação que sussurrava "sete dias". Com esse prenúncio, a pessoa estava amaldiçoada e iria morrer no prazo mencionado.
.
Katy (Amber Tamblyn - que protagonizou o ridículo "O Grito 2"), uma das garotas, fica assustada, pois, há uma semana, ela esteve com o namorado e um casal de amigos num chalé e assistiu a uma fita muito estranha que estava no acervo do local. Rebecca (Rachael Bella), a outra garota, ri e conta que tudo não passava de bincadeira, de uma lenda urbana. Mas nessa mesma noite, algo tenebroso acontece com Katy. O que no original japonês é só insinuado, havendo um corte no momento crucial, na versão americana, há um número maior de detalhes, sem, contudo, revelar o que causou a morte de Katy.
.
Calma! O que eu escrevi é só o início do filme. No funeral de Katy, sua mãe (Lindsay Frost ) se mostra indignada, querendo entender o que faria uma garota de 16 anos morrer do coração e apresentar uma expressão de puro pavor no rosto, enquanto sua amiga Rebecca enlouquece e é internada num hospital psiquiátrico, entrando em estado catatônico.

A partir de então, inicia-se o enigma de "O Chamado", entrando em cena a prestigiada e linda atriz Naomi Watts (foto acima). Interpretando a repórter Rachel Keller (papel recusado por Jennifer Connelly, Gwyneth Paltrow e Kate Beckinsale - as duas primeiras até poderiam se dar ao luxo de recusar, mas a terceira...), Watts dá um tom dramático e dinâmico para sua personagem, o que trouxe um ótimo diferencial para o filme. Uma grande profissional que soube dar crédito às situações absurdas apresentadas na produção graças à sua seriedade e competência.
Rachel é tia de Katy e, durante o funeral, acaba ouvindo a conversa de algumas garotas sobre as coincidentes mortes trágicas dos três companheiros que tinham ido ao chalé com sua sobrinha (o namorado e o casal de amigos). Intrigada, Rachel resolve investigar a situação e se depara com uma história assustadora que pode comprometer a sua vida e a de seu filho Aidan (David Dorfman), um menino sensitivo que já havia previsto a morte de Katy.
Com incidência de sons muito bem acertados e um cuidadoso trabalho de fotografia, "O Chamado" envolve o espectador do início ao fim, causando uma sensação de ansiedade, medo e uma grande curiosidade para saber o que há por trás daquela fita VHS.


Completando o elenco, além do ator em ascensão Martin Henderson (de "Fúria em Duas Rodas"), temos os veteranos Brian Cox e a sempre agradável Jane Alexander (de "Kramer vs. Kramer").


Não foi por acaso que a angelical e bonitinha Daveigh Chase (foto acima) ganhou o MTV Movie Awards, na categoria de Melhor Vilã, por ter dado vida à estranha e malévola Samara Morgan, um dos trunfos do filme. Destaque para um grande momento: a seqüência do cavalo furioso na balsa que, diante da proximidade de Rachel, sente o prenúncio da maldição, tornando-se um animal feroz e incontrolável que chega a romper a sua cela de proteção. É uma das cenas mais assustadoras do filme, embora o público eleja outras como aquelas que os deixaram com medo de dormir.

Algo que ficou interessante na versão norte-americana foi o título do filme. Em vários momentos, um círculo é mostrado (de forma explícita ou subliminar), o que poderia ser um anel (ring), uma aliança, um simbolo de ligação; no entanto, ring, no idioma inglês, também serve para os toques telefônicos. No filme, aqueles que chamam as vítimas para ouvir a mensagem fatal... Seven Days! Desta forma, criou-se um dubiedade na interpretação do que seria "The Ring". Tanto que o cartaz norte-americano do filme traz a seguinte mensagem: "Before you die, you see", ou seja, não é "ouvir" como no pôster em português.

.
Não posso deixar de comentar um ponto destoante: "O Chamado", talvez pela diferença de tempo da produção norte-americana com a japonesa, nos apresenta uma modernidade (grandes televisões de plasma - provavelmente com conversor digital integrado, HDTV, conexões HDMI e USB, celulares pequenos, computadores avançados, equipamentos de captura de imagens etc) que contrasta com a fita VHS, o objeto principal do filme, afinal, são poucos os que ainda têm seus aparelhos de video cassete instalados em casa...
.
Segue abaixo o conteúdo da fita VHS que determinava a morte de quem assistia. Mas não se assuste se, ao terminar de assistir, você receber uma ligação com uma voz sussurrante, dizendo: "seven days".

sábado, 1 de outubro de 2016

O Abutre (Nightcrawler, 2014)



Poucas vezes temos a oportunidade de ver protagonistas tão amorais e tão sem escrúpulos no cinema, e o pior, terminar por gostar deles. O aparentemente ingênuo Louis Bloom nos dá uma lição de como pegar uma ideia de forma oportunista, desenvolvê-la com coragem e se tornar uma referência no produto, sem pudor algum, sem regras morais, sem piedade...

Logo na primeira cena, percebemos que Louis é um homem estranho e deslocado no mundo. Apesar de parecer um sujeito abobalhado, ele nos surpreende ao atacar um vigilante desavisado para tão somente roubar o relógio bacana do sujeito. Depois disso, é revelado que ele pode ir além, tendo a capacidade de enfrentar e coagir pessoas espertas por meio de sua desenvoltura com as palavras e de sua capacidade de observar os pontos fracos dos outros de forma sutil e ardilosa.

Por fim, essa impressão vai por água abaixo quando temos a certeza de que o personagem é um canalha bem articulado.



Em O Abutre (Nightcrawler, 2014), o ótimo Jake Gyllenhaal compõe mais um personagem brilhante para sua galeria de tipos fora do comum. Assim como em Donnie Darko (2001), o ator tomou o cuidado de manter seus olhos sempre bem abertos, sem piscar, sem desviar a visão de seu foco, tudo para potencializar o modo soturno da caracterização. Complementando a composição, por conta própria, Gyllenhaal decidiu emagrecer 10 quilos e usar um cabelo do tipo corte-me, por favor.

No primeiro ato do longa, mesmo sob o impacto da primeira cena, persiste a ideia de que estamos diante de um ladrão medíocre que quer um emprego e construir um nome, mas que ainda não se deu bem por não estar no lugar certo, na hora certa, para a sacada de sua vida. Não obstante a consciência de que poderia parecer patético, ele não se constrange ao pedir um emprego para o dono da empresa de fachada que compra seus itens roubados. Quem vai dar um trabalho a um um ladrão pé-de-chinelo confesso? Ele parece mesmo um estúpido...

Louis Bloom aprendeu grande parte de seu discurso impecável em pesquisas na internet, o que seria algo até plausível para um homem deslocado, desde que ele fizesse uso disso somente naquelas conversas introdutórias e superficiais. O problema é que ele tem a capacidade de manter essa mesma tática memorizada ao longo de uma relação, revelando, assim, seu lado sociopata. Psicótico, Bloom é um autodidata que planeja suas falas e que arma o declínio de seus opositores sem se preocupar com a gravidade do resultado. Um perigo!



Dirigindo noite adentro, Louis se depara com um grave acidente de carro e observa algumas equipes independentes que gravam aqueles momentos funestos para vender às emissoras de TV.  É aí que surge a ideia de comprar uma câmera (também trocando material de roubo), usar um rádio receptor e captar os alertas policiais para chegar antes aos locais dos desastres e dos assassinatos.


Meio descontrolado a princípio, ele arruma encrenca com pessoas próximas às vítimas, com policiais que estranham seu jeitão atabalhoado e com profissionais mais bem preparados (como o interessante personagem de Bill Paxton), que querem afastar aquele "abutre" amador das cenas de sangue e conflito.

E é num desses momentos de empurrões e desentendimentos que ele consegue capturar com mais precisão o resgate de um grave acidentado. Na espreita, ele procura saber a quem levar aquele tipo de filmagem, dirigindo-se, então, a uma emissora que estava no jogo do quanto mais chocante melhor. Logo no primeiro contato, ele conhece a diretora de um programa que procurava mostrar matérias sensacionalistas, vestindo um véu de jornalismo investigativo e de prestação de serviços sociais. Aquele mundo cão da TV...


Com esse material grotesco, ele consegue a atenção da diretora de TV Nina Romina (brilhantemente interpretada pela sempre bela Rene Russo), entrando num esquema de atração e disputa. Ela querendo cenas cada vez mais impactantes, ele querendo cada vez mais estrutura e apoio para crescer naquele ramo. Um alimentando o outro, um querendo devorar o outro. Nessa, os dois se dão bem. Porém, é exatamente nesse jogo que Nina descobre estar nas mãos do bobão. O longo discurso em que Gyllenhall, sem receio algum, propõe (exige!) um romance porque aquilo seria uma extensão de seu negócio, é de deixar qualquer um admirado com seu domínio de texto e gestos. Contudo, falta de escrúpulo por falta de escrúpulo, a proposta imoral, apesar de audaz e desrespeitosa, termina por não ser bem um risco para ela. Seria um vantajoso jogo de interesses, um romance entre picaretas (que merecia algumas cenas mais intensas, penso), uma armação de gato e rato.


O filme traz um debate interessante sobre o que o público, mesmo que inconscientemente, busca no jornalismo da TV. Existe, sim, uma grande parte de expectadores que tem um gosto maior pelos crimes e acidentes locais, deixando de lado as reportagens de abrangências nacionais e internacionais. Isso acontece muito no Brasil também.

Depois de tanta ousadia e de tantas demonstrações de mau-caratismo, terminamos por simpatizar (e até por torcer) pelo personagem de Gyllenhaal, pois sabemos que um tipo como aquele, depois de uma jogada tão bem articulada,  merece se sair bem (lógico que na ficção).

Uma pena não ter havido sequer uma indicação ao Oscar...

Recomendo sem ressalvas!







segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Suspense, Sustos e Loiras Surpreendentes

Janet Leigh

O que as loiras acima têm em comum com a estrela Janet Leigh?

ATENÇÃO: ESTA POSTAGEM POSSUI SPOILERS SOBRE OS SEGUINTES FILMES:

“Psicose” (Psycho, USA, 1960), “Vestida Para Matar” (Dressed to Kill, USA, 1980), “Pânico” (Scream, USA, 1996), “O Ente Maldito” (The Ghol, UK, 1975), “A Hora do Pesadelo” (Nightmare on Elm Street, USA, 1984), “Sexta-Feira 13″ (Friday the 13th, USA, 1980 e “O Corte da Navalha” (Razorback, Australia, 1984).
..................................................................................................................................................................
Além do fato de também serem (ou estarem) loiras e de terem atuado em bons filmes do cinema, elas foram apresentadas ao público como a (suposta) protagonista da produção, mas encerraram suas participações em pouco tempo da projeção, passando o bastão para outras atrizes.

O mestre do suspense Alfred Hitchcock foi o cineasta que mais brilhou nessa jogada de induzir o público a um enredo e chocar toda uma platéia ao eliminar a “protagonista” após alguns minutos do filme. A façanha foi apresentada no clássico “Psicose” (Psycho, USA, 1960) e serviu de inspiração para vários outros diretores. Neste filme, a tarefa de assumir o papel da mocinha da história ficou a cargo da não menos talentosa e também loira Vera Miles.




Ainda que as outras produções não tenham atingido a importância de "Psicose", a idéia, em alguns casos, foi até bem aplicada, conseguindo criar o inevitável incômodo no público.

Em questão de impacto, o que mais se aproximou do clássico de Hitchcock foi o filme de seu assumido discípulo Brian De Palma. Em “Vestida Para Matar” (Dressed to Kill, USA, 1980), o diretor fez alarde com a volta triunfal da estrela da série de TV Police Woman, a belíssima Angie Dickinson, prometendo cenas picantes com a recatada loira, da mesma maneira que o Mestre do Suspense fez com Leigh (embora com muito mais discrição). E não é que Brian De Palma fez o mesmo com a personagem da atriz? A substituição da heroína ficou a cargo da também loira Karen Allen.



Quando do lançamento do filme “Pânico” (Scream, USA, 1996), dirigido pelo renomado Wes Craven, os cartazes de divulgação nos fizeram pensar que a loirinha Drew Barrymore seria a protagonista do filme. Em entrevista de divulgação do longa, a jovem atriz (não sabemos se ingenuamente) jogou por terra toda uma jogada (sem trocadilho) de marketing ao dizer que não queria antecipar muito sobre as surpresas do filme, mas que ela estava se “sentindo uma Janeth Leigh, uma Angie Dickinson…”. Os cinéfilos entenderam o recado. Desta vez, a substituição da protagonista ficou a cargo da bela morena Neve Campbell.



Querendo copiar ou não o grande mestre, o filme inglês “O Ente Maldito” (The Ghol, UK, 1975) conseguiu a façanha de fazer o público acreditar e torcer para que a personagem Angela, interpretada pela sensual Veronica Carlson (loira, sexy e envolvente!!!), desvendasse o mistério da mansão gótica no meio de uma floresta. Entretanto, a “inocente” garota não sabia que estava prestes a ser eliminada numa cena inusitada. Nessa produção, a quase ruiva (quase sempre loira em outros filmes) Alexandra Bastedo (suave no início e completamente histérica ao final) fez a vez da mocinha substituta.

 


Falando de substituição de loiras por quase ruivas, o diretor Wes Craven (olha ele aqui de novo!!!) já havia feito essa mesma jogada antes de seu filme “Pânico”. Em “A Hora do Pesadelo” (Nightmare on Elm Street, USA, 1984), ele nos apresentou a linda Amanda Wyss como a garota que iria conduzir o público ao longo desse grande sucesso do cinema, mas o tenebroso Fred Kruegger (Robert Englund), talvez para já mostrar aos espectadores que não estava para brincadeiras, atacou a mocinha e mudou o rumo da história. A ruivinha Heather Langenkamp assumiu o jogo e partiu para o ataque (ou para fuga).



Sean S. Cunningham dirigiu a bonitinha Adrienne King em “Sexta-Feira 13″ (Friday the 13th, USA, 1980), a jovem ingênua que sobrevive ao massacre e que consegue liquidar a malévola Pamela Voorhees (Betsy Palmer). Risível e depreciado por alguns, é inegável que o filme se tornou um grande sucesso e suas continuações foram a prova de que a franquia fora (ou ainda é) promissora. A inevitável seqüência, que introduziu o assassino Jason Voorhees, anunciou que a loirinha sobrevivente do primeiro filme estaria de volta. Mas eis que a produção, dirigida por Steve Miner, resolveu dar um susto na platéia com a eliminação da gorota (King) logo na primeira cena da parte 2. A substituta loira, em papel muito parecido com o de Adrienne, foi Amy Steel.



Com “O Corte da Navalha” (Razorback, Austrália, 1984), o diretor Russell Mulcahy trouxe ao público um filme acima da média na proposta e na condução inicial do enredo, valorizado por uma fotografia muito bem cuidada. Já estávamos intrigados com a investigação sobre uma devassa mostrada logo no início do longa e acostumados à corajosa repórter Beth Winters, vivida com sobriedade pela charmosa Judy Morris (loira), quando algo monstruoso faz um estrago geral e nos deixa simplesmente atônitos. O ator Gregory Harrison, que faz o marido da personagem de Morris, assume o posto central do filme e vai ao local da tragédia para saber notícias de sua desaparecida esposa, recebendo a ajuda da loirinha da vez, a bonitinha Arkie Whiteley.


O Mestre do Suspense deixou seu legado e outros cineastas conseguiram fazer bons filmes com essa idéia de surpreender o público com a eliminação da protagonista, no entanto, até o momento, ninguém conseguiu superar a importância de Alfred Hitchcock no estilo suspense, tampouco desbancar a performance do ícone Janet Leigh.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O Boneco do Mal

Esqueça o infeliz título em português, que nos remete a qualquer outra coisa que já assistimos em algum momento da vida. Deveriam ter optado pelo simples, apenas traduzindo o título original, afinal, o garoto do filme em questão tem nome, história, fotografias e representatividade na vida daqueles que o cercam. Estar presente em cena como um boneco não é um fator, pelo menos na proposta do filme, para ser visto como tal. Na realidade, os distribuidores brasileiros quiseram aproveitar o trunfo de alguns filmes que fizeram sucesso com seus bonecos diabólicos. Estão aí Annabelle (idem, 2014) e Chuck: O Boneco Assassino (Child's Play, 1998). Não entenderam (ou não quiseram entender) a sutileza e ironia do título em inglês.


O Boneco do Mal (The Boy, 2016) é um filme de terror em seu formato mais cômodo possível, aquele tipo que utiliza os mesmos itens e recursos das várias produções do gênero. Muitas vezes, argumento e roteiros muito elaborados para o gênero fazem com que o rumo se perca, incorrendo naquela triste sensação de que os idealizadores não souberam contar a história. Defendo que, na falta de um processo criativo de mestre (poucos o são) é preferível ir pelo terreno seguro mesmo. Se você não for um gênio de criação cinematográfica, fique no simples, da mesma forma sugerida para o título.

Por outro lado, nesse aspecto de se manter no usual ambiente do terror, é preciso estar ciente de que os clichês do gênero serão inevitáveis. Então, para o público, é necessário dar um desconto e embarcar na proposta, ao passo que, para os produtores, é esperado algum tipo de melhor do mesmo. Ou seja, trabalhar com o clichê não significa que os elementos deverão ser revisitados sem algum tipo de inovação. Trabalhe o ângulo, trabalhe o momento, trabalhe o ator, inverta a ordem. Recontar o conhecido de forma ímpar também é muito bem-vindo.

Veja se não parece com o conteúdo de qualquer coisa que já vimos: garota bonita sozinha e vulnerável, mansão isolada no meio de uma floresta, carros que não dão partida de início, barulhos estranhos, sonhos assustadores, acordes altos... Por aí vai! O importante é cuidar para que não fique burocrático (no sentido negativo do termo) e simplesmente jogado na cara do espectador.

Greta, uma bela garota norte-americana (Lauren Cohan, a Maggie de The Walking Dead), tentando esquecer os tormentos de um namoro sofrível, aceita um trabalho de babysitter numa mansão em lugar remoto da Inglaterra. No local, ela é recebida por um casal de meia-idade e termina por descobrir que havia sido contratada para cuidar de um boneco. Aí que entra a questão de dar esse nome ao título. Apesar de a criança ser realmente um boneco, sua existência era encarada como a de um garoto normal, com direito a rotinas próprias de um ser humano. E, o mais importante, ele tinha um histórico de vida: registros fotográficos (de quando existia), nome, certidão de nascimento...



Logicamente, a princípio, a mocinha acha a situação risível, mas como ela estava recebendo um bom dinheiro para aquele ofício e pretendia realmente manter distância do namorado complicado, resolveu entrar no jogo e tratar Brahams (o nome do garoto representado pelo boneco) como uma criança.

O casal, então, decide sair numa esperada viagem de férias (para isso eles haviam contratado Greta), deixando a babá completamente sozinha (e isolada) na mansão com o garoto.

A partir daí, não é difícil imaginar que Greta começaria a ouvir vozes, receber telefonemas, ter objetos desaparecidos, terminando, por fim, a entrar em pânico. É realmente necessário compreender a natureza tola das mocinhas de filmes de terror, senão fica impossível embarcar na história. O roteiro chega a ser bem patético em certos momentos. Ninguém tem pertences tirados de um local, ainda mais quando se está sozinho em casa, e sai em busca, adentrando aquele batido lugar escuro e sinistro, e o pior, apenas de toalha!

Relevem!



O bom do filme é que ele não invocou os velhos feitiços e maldições tão recorrentes nos filmes de terror atuais, indo por um caminho que, sem tanto alarde, ao menos foi sincero e acertado.

Longe de ser um filmão, O Boneco do Mal ao menos serve para uma boa sessão de filme de terror. sem muitas pretensões. Vale ver na TV, em VOD ou streaming.

Concluindo a ópera, eu gostei.


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Proxy

Após uma tranquila cena, em que a personagem principal do filme faz seu último pré-natal, somos surpreendidos com uma sequência elaborada exatamente para chocar. A mesma jovem, grávida de 9 meses, é atacada, arrastada para um beco e termina por levar fortes tijoladas na barriga. Logicamente, o indivíduo encapuzado queria matar a garota e o seu bebê. Ou queria somente matar a criança e manter a moça viva, com a cruel intenção de destruir sua felicidade?

Não se assustem! As cenas relatadas acima fazem parte do trailer e da sinopse original do longa, não se configurando um spoiler. O filme em questão tem reviravoltas e revelações de impacto. Muitas de arrepiar!


A tragédia pode levar o ser humano a um processo de declínio ou pode criar uma oportunidade para construção de uma vida melhor. Agora, quando alguém passa por uma situação funesta e vai pelos dois caminhos, é sinal de que há algo errado na história.

Existem muitos centros de apoio que auxiliam pessoas desoladas e socialmente sem rumo, não se importando com  a mensuração do dano ou em fazer uma escala de valores de transtornos, Assim, podemos encontrar, nesses lugares, pessoas com problemas legítimos e pessoas com questões pouco significativas a serem tratadas, mas que também merecem algum tipo de acalento. Afinal, quem pode definir qual sofrimento é maior e pode estar colocando a vítima no limite do desespero? E quem não tem problema algum pode procurar esses lugares?  Pode, não é?

É num ambiente como esse que as duas figuras principais de Proxy (idem, 2013) se conhecem. Embora uma pareça mais conformada e resolvida do que a outra, nenhuma delas tinha ideia do quanto seria danoso remexer em um terreno desconhecido. E é exatamente o avanço de uma barreira que traz à tona as verdadeiras faces de duas mulheres.

Na realidade, nenhuma delas estava lá por motivos legítimos, ou seja, buscando realmente atenuar algum trauma sofrido, uma vez que uma não só foi por insistência do hospital que a socorreu e a outra não queria de fato resolver seu problema.






Uma delas é Esther (a genial Alexa Rasmussen), uma jovem grávida que, após seu último pré-natal, é brutalmente atacada num beco e perde sua criança. As cenas são fortes! A outra é Melanie, interpretada por Alexa Havins, uma jovem viúva que procura o centro para aceitar a perda de seu filho e de seu marido num acidente de carro.

Grande destaque no Festival Internacional de Cinema de Toronto - Edição de 2013, Proxy sai da linha de drama comum e surpreende com uma narrativa contundente, capaz de prender a atenção até o choque final do última cena do filme. 

Por causa de algumas imagens divulgadas na internet, principalmente aquelas em que a jovem grávida é atacada, o filme tem sido buscado erroneamente por apreciadores de filmes de terror, fazendo com que muita gente quebre a cara e condene a produção, uma vez que não se trata de um exemplar do gênero. 

trailer oficial é muito bem sacado e não se caracteriza, de forma alguma, como aqueles filmes que capricham na seleção de cenas somente para enganar o público com um teaser bem montado. O filme é melhor que o trailer, ok? Não venham me responder: claro que é. Eu já assisti a muitos teasers superiores à produção na íntegra.


As atrizes centrais não brincam em serviço e nos apresentam composições convincentes das personagens tridimensionais que elas interpretam, conseguindo solidificar as mudanças de suas personalidades com afinco  à medida que a produção avança. O outro destaque feminino fica por conta da interpretação furiosa de Kristina Klebe, que não tem sua performance comprometida por entrar em cena somente após várias cenas do primeiro ato do longa. A condução vigorosa que a atriz dá à sua personagem, uma lésbica bem masculina, voraz e violenta, nos faz acreditar que ela realmente irá comprometer o rumo do filme.

Com um final surpresa digno de uma ideia original bem construída, o longa nos faz questionar sobre as aparências e os segredos guardados por pessoas parecidas com muitas que estão próximas da gente. A cena final é arrebatadora e pode deixar muito espectador sem ação por alguns segundos.